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Os consumidores mais cautelosos e motivados reconhecem ou intuem que a protecção individual através do boicote ao consumo de OGM é a primeira das dimensões de intervenção a que o cidadão tem acesso. A sua voz pode fazer-se ouvir de muitas outras formas:
- Mostrar o seu envolvimento pessoal: enviar cartas e correio electrónico a contactos pessoais/empresas/organizações; formando grupos de pessoas com os mesmos interesses; distribuindo folhetos informativos; etc.; - Tornar o assunto tema de debate público: em conversas com amigos e familiares; em cartas para os jornais; debates em escolas; igrejas; associações recreativas e culturais; dinamizando pequenos grupos locais de investigação e divulgação; - Interpelar múltipos parceiros: nos supermercados e cantinas podem preencher-se folhas de sugestões com pedidos de esclarecimento; nos restaurantes pode perguntar-se ao chefe de cozinha qual a atenção que dedicam à questão; nas campanhas políticas pode questionar-se qual a posição oficial de cada candidato; no contacto pessoal com agricultores e em mercados pode discutir o tema e, claro, muitas empresas produtoras e distribuidoras da área alimentar têm números grátis de atendimento ao cliente que podem ser utilizados para inquirir a posição oficial da empresa e sugerir a sua alteração ou aperfeiçoamento no sentido de uma maior vigilância aos OGM; - Participar nas oportunidades de consulta pública: o governo está vinculado à obrigação de consultar o público antes de aprovar qualquer cultivo de OGM para fins experimentais e, além disso, tem de manter um registo público com a localização de todas essas libertações. No caso de autorizações para fins comerciais, a Comissão Europeia tem necessariamente de abrir um prazo de 30 dias para receber os comentários do público e, mais importante ainda, cada Estado-Membro tem de criar um registo público com a descrição de todos os locais onde os OGM forem cultivados comercialmente. Os agricultores e respectivas agremiações terão igualmente vantagem em manterem-se ao corrente desta informação. Em Março de 2003, a Comissão Europeia publicou o seu mais recente estudo de opinião
sobre a posição dos consumidores face à biotecnologia e aos alimentos transgénicos. Verifica-se que os europeus não são contra a tecnologia em geral (a vasta maioria acredita que os computadores, a energia solar, as telecomunicações, etc, trarão benefícios sociais) e que sabem distinguir entre as várias formas de biotecnologia, particularmente entre aplicações médicas e agroalimentares. Enquanto que as primeiras são vistas geralmente como positivas , como no caso dos testes genéticos para detecção de doenças hereditárias, a maioria está contra o desenvolvimento de alimentos transgénicos, que são vistos como inúteis, moralmente inaceitáveis e um risco para a sociedade. Curiosamente, os europeus não estariam dispostos a comprar alimentos GM mesmo que estes contivessem menos pesticidas, fossem mais compatíveis com o ambiente, tivessem melhor sabor, tivessem menos gordura, ou mesmo que fosse mais baratos.
Estes dados vêm corroborar numerosas sondagens realizadas nos últimos anos. Um estudo realizado pelos analistas internacionais Healey and Beaker em 1999 concluiu que 65% dos europeus, o que representa mais de 4% do que no ano anterior, não querem comprar alimentos GM. Em Portugal, a oposição aos alimentos transgénicos subiu de 55% para 60% entre 1998 e 1999. No ano 2001, o jornal francês Le Monde publicava uma sondagem segundo a qual 66% dos britânicos e 79% dos alemães consideravam os OGM perigosos para a saúde. Esse sentimento é partilhado por consumidores de todos os continentes:
- No Brasil, 71% dos que já ouviram falar em transgénicos, preferem não os consumir e 92% pretendem que os rótulos indiquem a presença de qualquer ingrediente trangénico.
- Na Austrália, 51% vêem a tendência para introduzir OGM como sendo negativa. No Japão, esse valor sobe para 82%.
- Na Nova Zelândia, 60% estão preocupados com os alimentos transgénicos.
- No Canadá, 62% estão preocupados com a segurança dos OGM e preferem não os consumir.
- Nos EUA, 58% não querem comprar alimentos transgénicos e 82% pretendem que sejam rotulados. Além disso, 68% estão dispostos a pagar mais para que haja rotulagem. As mulheres americanas são substancialmente mais cépticas do que os seus pares masculinos: 59% dos homens daria OGM a comer aos filhos mas apenas 37% das mulheres o faria.
Através dos resultados do último Eurobarómetro, cujo inquérito foi aplicado numa fase pós-contestação pública, constata-se que, de uma maneira geral e comparativamente aos inquéritos anteriores, a opinião pública europeia está menos receptiva à aplicação da biotecnologia na produção alimentar. Porém, registam-se algumas nuances por países. Assim, Áustria, França, Luxemburgo, Grécia e países da Escandinávia, são os que mais contestam esta aplicação, com uma percepção de risco maior, com uma opinião mais negativa e evidenciando, simultaneamente, mais conhecimento sobre a matéria. Em contrapartida, temos a Espanha (um dos países que revelou estar mais favorável a esta aplicação), Portugal (que evidenciou percentagens de não-respostas mais elevadas), o Reino Unido e a Irlanda. Nalguns casos verifica-se uma espécie de correlação entre grau de desinformação e grau de concordância (Itália, Portugal, Bélgica). Noutros casos, a desinformação estimula a rejeição (Grécia, Áustria, Luxemburgo). Noutros ainda o grau de informação gera mesmo mais concordância (Holanda) (Gráfico 2).

Dados recentes do Eurobarómetro 52.1 revelam que os Portugueses, para além de apresentarem uma elevada percentagem de respostas “não sabe”, tendem a não querer consumir AGM. Assim, apresentam-se algumas das respostas dos consumidores portugueses a algumas questões relativas ao consumo de AGM:




De acordo com outro estudo, quase 90% dos portugueses não sabem o que são transgénicos. Muitos referem que já ouviram falar, mas não sabem do que se trata. Só 11,5% dos portugueses sabem exactamente o que são transgénicos. Mais de metade dos inquiridos nunca ouviu falar sobre o tema. Daqueles que já ouviram, 54,5% não se lembram do que se trata e 18,2% dão uma resposta errada. Num inquérito de rua, o JornalismoPortoNet ouviu respostas como “são alimentos clonados” ou “isso tem a ver com política”.

Os resultados são ainda mais preocupantes se analisarmos a variável sexo. É que todos os inquiridos que sabem correctamente o que são os transgénicos são mulheres, numa faixa etária entre 20 e 45 anos. 53,8% dos homens nunca ouviram falar em transgénicos e, dos que ouviram, nenhum sabe do que se trata.
Em relação à forma como ouviram falar dos transgénicos, 45,5% dos inquiridos dizem que a televisão foi a principal fonte de informação sobre o tema. 40,9% referem a imprensa. Nenhum dos inquiridos recebeu informação sobre transgénicos através da rádio, internet ou de colegas, amigos e familiares.

A comunidade científica não tem uma posição uniforme em relação ao tema. Uns defendem os transgénicos. Outros condenam. “Temos aqueles que defendem os transgénicos, dizendo que os avanços científicos implicam riscos. Acrescentam que o valor nutricional dos alimentos pode ser melhorado e dizem também que os transgénicos podem resolver a questão alimentar dos países menos desenvolvidos, por permitirem uma maior produtividade”, refere Isabel Fernandes, nutricionista. Depois, temos aqueles que estão contra os transgénicos, apontando-lhes muitos inconvenientes. “Estamos a arriscar a nossa vida a troco de nada”, pois os transgénicos têm vários inconvenientes, considera Margarida Silva. Um deles é a inexistência de estudos que mostrem os seus efeitos nos seres humanos. “Não sabemos se alguém morreu por causa deles”, acrescenta. A comunidade científica não tem uma posição uniforme em relação ao tema. Uns defendem os transgénicos. Outros condenam. “Temos aqueles que defendem os transgénicos, dizendo que os avanços científicos implicam riscos. Acrescentam que o valor nutricional dos alimentos pode ser melhorado e dizem também que os transgénicos podem resolver a questão alimentar dos países menos desenvolvidos, por permitirem uma maior produtividade”, refere Isabel Fernandes, nutricionista. Depois, temos aqueles que estão contra os transgénicos, apontando-lhes muitos inconvenientes. “Estamos a arriscar a nossa vida a troco de nada”, pois os transgénicos têm vários inconvenientes, considera Margarida Silva. Um deles é a inexistência de estudos que mostrem os seus efeitos nos seres humanos. “Não sabemos se alguém morreu por causa deles”, acrescenta.
Ao efectuar um inquérito na zona de Alvalade a 150 pessoas, usando as questões do Eurobarómetro, obtive os seguintes resultados:

De salientar a surpreendentemente baixa percentagem de inquiridos que não sabiam/não responderam e a proximidade com os resultados do Eurobarómetro.
A contaminação dos solos é outra das preocupações. Experiências demonstram que a toxina Bt do milho geneticamente modificado passa para o solo, onde permanece durante anos. A biodiversidade está também em causa, garantem os ambientalistas. “Os genes da planta geneticamente modificada matam os insectos que a comem. Mas há experiências que mostram que joaninhas, que comeram insectos, que comeram transgénicos, também morreram”, afirma Isabel Fernandes.
Segue-se o excerto da segunda parte da entrevista ao Prof. Dr. Rui Malhó:
“G: Tem conhecimento se a opinião do público, em geral, em relação aos alimentos transgénicos melhorou ou se ainda existe um clima de desconfiança?
RM: Ainda existe desconfiança, mas melhorou (não muito) na Europa. Eu diria, com alguma cautela, que as perspectivas são ligeiramente animadoras. Na própria comunidade científica há uma percepção de que é bom que haja alguma desconfiança, porque isso nos obriga a ter mais cuidados e responsabilidades. Portanto, nesse aspecto, uma opinião pública que está mais esclarecida e é mais exigente pede mais de mim do que uma opinião pública ignorante.
G: Nos EUA, por exemplo, há uma melhor aceitação.
RM: Exactamente. Mas existe um debate muito aceso. Pode-se dizer que nos EUA se aceitam muito melhor porque existe menos conhecimento da população em geral ou porque é uma cultura mais virada para a economia e portanto se vêem que é um investimento economicamente positivo, há uma tendência para os acolher. Já na Europa, existe uma cultura de precaução, de resguardo, e isso leva a uma natural desconfiança. Por outro lado, também podemos dizer que – e isso nota-se agora com os debates do Al Gore e o papel da UE – há uma maior consciência ambiental (no cômputo geral, não quer dizer que não hajam indivíduos ignorantes em qualquer país) e um conhecimento melhor acerca dos potenciais problemas, o que eu acho que é bom pois coloca mais pressão para que se crie técnicas cada vez mais avançadas e mais seguras, pois da mesma da forma como vocês quando vão ao médico não querem apenas tratados mas que seja prestado um bom serviço. Em suma, eu considero saudável que o público tenha reservas e seja céptico para que haja melhor informação e não se tenha medo de ameaças fantasma mas sim de ameaças reais.”